A evolução dos meios eletrônicos de pagamentos permite prever um futuro sem a necessidade do cartão de plástico. Novidades, como a recém-chegada carteira eletrônica Android Pay, do Google, devem acelerar a popularização dos pagamentos via dispositivos móveis, mas a massificação do sistema deve ocorrer só com o aumento dos gastos e a maior entrada, no mercado de consumo, dos millenials – pessoas já nascidas no mundo digital onde as transações são feitas habitualmente por meio de aparelhos celulares. Até lá, especialmente no Brasil, os meios digitais conviverão com a expansão do plástico.

O crescimento do e-commerce e de serviços mobile já dá impulso a transações não presenciais, que prescindem do plástico para finalização. Segundo dados da Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs), o uso de meios eletrônicos de pagamento cresceu 6,3% no ano passado. Os cartões de crédito, 4%; mas, no segmento não presencial, o aumento chegou a 13,1%. O produto de maior crescimento, o cartão de débito, apenas agora amplia a presença no mundo digital. Ele expandiu-se 10,2% em 2016, graças à evolução de tecnologias antifraude e de aceitação que o levou a serviços como Netflix e, mais recentemente, ao Uber.

Enquanto isso, tecnologias como pagamentos por aproximação (NFC), carteiras digitais em dispositivos móveis e pagamentos máquina a máquina (IoT) ainda carecem de escala e corte de custos suficientes para movimentar consumidores e vendedores e alcançar a segurança e a conveniência do plástico, garantidas por características como uso de chip e senha, amplitude de aceitação e facilidade de utilização.

O consumidor só muda se a experiência de outro meio superA a do plástico

— Fernando Chacon, presidente da Abecs, diz que o cartão de plástico ainda tem vida longa

“O plástico ainda tem vida longa”, confirma o presidente da Abecs e diretor do Itaú Unibanco, Fernando Chacon. “O consumidor só muda se a experiência de outro meio superar a do plástico.” Para chegar lá, tem aumentado a adoção de tecnologias como tokenização, processo que garante autenticação mais segura; validação biométrica, com uso de sinais como impressões digitais; e soluções antifraude que empregam robôs (bots) capazes de analisar enormes quantidades de dados automaticamente – com apoio de big data, analytics, inteligência artificial e aprendizado de máquina (machine learning).

Fernando Teles, da Visa, afirma que também há oportunidades em mercados como transporte e saúde para o segmento de cartões

Desafio é superar a conveniência

Se, por um lado, os grandes emissores seguem o caminho das fintechs, com aplicativos para fornecimento de serviços e cartões virtuais, por outro, crescem os esforços para levar ao mundo físico a facilidade dos pagamentos praticamente automáticos das operações virtuais. A melhoria da experiência de compra será o principal fator para a adoção dos novos meios. “Quem deve puxar a cadeia são os vendedores”, diz André Leme, sócio da Bain & Company.

Dos pontos de venda partirá o impulso a tecnologias como NFC, para uso por cartões ou dispositivos como telefones, pulseiras e anéis. Só após esses passos iniciais, a indústria deve investir na educação dos consumidores e dos vendedores, como ocorreu para adoção de chips. Hoje, apesar de 60% das 4,5 milhões de maquininhas de aceitação de cartões (POS) do país contarem com a tecnologia, o sistema não decolou. A carteira Android deve acelerar o processo.

Para Francisco Aranda, sócio da EY, a massificação faz do celular candidato natural à substituição do cartão de plástico. Mas não em curto prazo. Além da conveniência, é preciso aumentar o contingente de smartphones e criar vantagens e benefícios para toda a cadeia de consumo. “Pela penetração nas diversas camadas da população, o plástico é a forma mais democrática de pagamentos sem carregar dinheiro em espécie”, confirma Rogério Panca, diretor de Meios de Pagamento do Banco do Brasil, que, no ano passado, lançou o aplicativo Ourocard com facilidades como a criação de cartões virtuais.

Virtuais ou não, os meios eletrônicos de pagamento manterão crescimento acima da média do mercado. Para este ano, a estimativa é de 6,5% de aumento no volume transacionado. No mundo físico, os estímulos para a expansão incluem movimentos como a substituição do papel-moeda. No digital são iniciativas como a oferta de APIs, conectores de softwares capazes de promover a integração entre soluções criadas por fintechs e instituições tradicionais. O maior acesso à tecnologia amplia a concorrência e leva a competição para o âmbito das ofertas. “O ganho com juros deve cair, mas aumenta o de prestação de serviços”, diz Oscar Pettezzoni, diretor da área de Serviços Financeiros da PwC Brasil.

João Pedro Paro Neto, da Mastercard Brasil e Cone Sul, afirma o número de maquininhas de cartões instaladas no país ainda pode triplicar

Oportunidades em serviços

A tendência de crescimento da regulação e seus impactos em resultados de emissores e adquirentes, prenunciada pela nova regra do rotativo, reforça o foco na prestação de serviços e esforços para conquistar segmentos de mercado onde os cartões são pouco aceitos. Entre aqueles de maior potencial está o setor de serviços, dos mais especializados aos domésticos, com destaque para mobilidade, educação e saúde. Em 2016, os pagamentos com cartões representaram 19,6% dos gastos do setor.

Produtos de ticket alto e pagamentos entre empresas são outras áreas com subutilização de cartões. “A questão é encontrar o modelo adequado para reduzir a barreira dos custos e substituir instrumentos como o boleto”, aponta Paschoal Batista, sócio da Deloitte. Uma tarifa de 3% por transação encarece demais o uso para compra de um automóvel ou abastecimento de combustível de grandes frotas, por exemplo.

Segundo Rodrigo Cury, depois de aderir à Samsung Pay no ano passado, o Santander constatou maior aumento no uso do celular do que no uso do plástico entre usuários da carteira

Para João Pedro Paro Neto, presidente da Mastercard Brasil e Cone Sul, o número de maquininhas instaladas no país ainda pode triplicar, inclusive com a inclusão de mais vendedores, como microempreendedores individuais. Segundo ele, a negociação de tarifas já facilita a aceitação dos cartões por setores como condomínios e escolas. “Também há oportunidades em mercados como transporte e saúde”, acrescenta Fernando Teles, Country Manager da Visa, que prevê aceleração no uso de cartões de débito em transações digitais graças ao enriquecimento de fatores de autenticação, como geolocalização, manuseio de celulares e redes sociais.

Novas tecnologias

Teles esteve recentemente na Austrália para entender como os pagamentos por aproximação alcançaram participação de 85% nas transações presenciais do país. “No Brasil a tecnologia está disponível, mas o uso ainda não foi disseminado”, compara. O maior número de ofertas dos emissores é mais um passo para adoção. Hoje, instituições como Banco do Brasil, Bradesco, Itaú Unibanco e Santander já oferecem cartões e carteiras digitais com NFC.

Rubens Fogli, do Itaú Unibanco, vê pouca demanda pela substituição do plástico, apesar do preparo tecnológico do mercado de cartões

Depois de aderir à Samsung Pay no ano passado, o Santander constatou maior aumento no uso do celular do que no uso do plástico entre usuários da carteira. Agora oferece pagamento NFC para Android, informa o diretor de Cartões Rodrigo Cury. O Bradesco, que além da carteira Samsung Pay aderiu à Android Pay, registra substituição de quase 30% nas ligações feitas ao contact center por interações no aplicativo lançado no ano passado, e vê mais de 500 portadores de débito diariamente aderirem ao Netflix.

Mas, segundo Cesário Nakamura, diretor de Cartões do Bradesco, o teste com pulseira de pagamento realizado com a Visa no ano passado mostrou que o custo é uma barreira para a disseminação. “O cliente acha interessante, mas não pagaria o produto”, diz. Rubens Fogli, diretor de Negócios Digitais do Itaú Unibanco – que acaba de fechar acordo com Samsung Pay –, também vê pouca demanda pela substituição do plástico, apesar do preparo tecnológico do mercado. “Ainda não se encontrou conveniência. Colocar o cartão em um POS e digitar a senha não causa grande fricção”, avalia.

O impacto da internet das coisas

Um consumidor precisa reabastecer o automóvel: pelo celular, solicita e autoriza a transação no posto mais próximo e depois de atendido, vai embora. Outro entra na loja, ativa o celular, recolhe os produtos desejados e sai sem falar com ninguém. Um outro percebe a falta de sabão em pó em casa, aperta um botão e recebe o produto no dia seguinte. Em todos os casos, o pagamento é debitado por meio de cartões registrados em carteiras eletrônicas.

O primeiro exemplo já funciona, aqui, nos postos Shell, com Paypal e carteira digital Masterpass. O segundo é da varejista sueca Näraffär, cujo aplicativo permite ao cliente utilizar a câmera do celular para ler os códigos de barras dos produtos e quitar a conta com o cartão registrado. A Amazon testa modelo de loja semelhante e, em 2015, lançou o Dash, pequeno dispositivo com um botão vendido a consumidores para, quando pressionado, solicitar automaticamente a compra de produtos como sabão em pó Tide ou lâminas de barbear Gilette, pagos com o cartão cadastrado na Amazon.

Fonte: Abecs

Os exemplos indicam o potencial da internet das coisas (IoT) para o mundo dos pagamentos. Para Paro Neto, da Mastercard, qualquer equipamento conectado pode ser usado para pagamento, seja telefone, relógio, carro ou geladeira. Basta adequação. “Uma geladeira exige tokenização e carteira digital; em um carro, é mais fácil tirar uma foto do que usar uma digital”, exemplifica. A bandeira investe em diferentes tecnologias, como reconhecimento biométrico de batimentos cardíacos, face e íris, para oferecer instrumentos adequados a cada uso, e acaba de adquirir a NuData para identificar usuários por padrões de uso do celular.

A Visa, por sua vez, fechou acordo com a IBM com foco em IoT para compor uma plataforma computacional com a qual poderão ser desenvolvidos softwares com a inteligência artificial Watson e pagamentos já habilitados. A medida facilita inovações como um botão em automóveis para compra automática de produtos e serviços ou um tênis com chip capaz de enviar ao celular do usuário sugestões de vestuário adequado ao seu perfil. (Martha Funke)