Esta é a segunda internet. Ela vai movimentar US$ 5 trilhões ao ano. Até 2020, teremos 8,4 bilhões de dispositivos conectados. Quem anunciou a nova internet foi o CEO da Cisco, John Chambers. O cálculo de movimentar trilhões de dólares ao ano é da respeitada consultoria Deloitte. Já o estudo que prevê para muito breve a existência de mais itens conectados que seres humanos vivos no planeta é do igualmente crível Gartner.

As previsões grandiosas, porém, ainda engatinham, no mundo real dos consumidores e dos serviços financeiros, que observam com um misto de fascínio e desdém a onda de conectividade que pluga relógios, canecas, carros, cafeteiras e até equipamentos de previsão do tempo à internet. O fenômeno leva o nome inglês de “internet of things” (IoT) ou, em português, internet das coisas _ a tecnologia dos objetos capazes de capturar dados e enviá-los de forma autônoma para serviços em nuvem na web. Um copo conectado, por exemplo, pode medir quanto líquido o usuário bebeu no dia; uma balança online pode registrar os altos e baixos do peso do corpo ao longo da semana; e um monitor cardíaco pode enviar alertas em tempo real sobre momentos de estresse e relaxamento.

Todas estas informações, dispersas, podem não ter muito valor; mas, uma vez organizadas e analisadas por aplicativos de big data (termo que se refere a um grande conjunto de dados armazenados) e inteligência artificial, permitem uma nova onda de inovação que aumentará a eficiência de dezenas de setores, entre eles o bancário.

“Embora todo setor financeiro esteja ainda na fase de análises e testes, sabemos que esta é uma tecnologia madura, que funciona, e sairá na frente quem encontrar formas criativas de dar utilidade a estes dados”, afirmou o diretor de Tecnologia e Operações da SulAmérica, Cristiano Barbieri, durante debate no Ciab FEBRABAN 2017.

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“Embora todo setor financeiro esteja ainda na fase de análises e testes, sabemos que esta é uma tecnologia madura, que funciona”

— Cristiano Barbieri, da SulAmérica

No setor de seguros, em que atua a SulAmérica, já existem aplicações em produção de internet das coisas, como os chips de telemetria aplicados em automóveis, ônibus e caminhões. Estes equipamentos são capazes de medir e informar a uma central de segurança a velocidade em que um carro se desloca, o número de freadas realizadas, se o veículo foi estacionado em um bairro violento ou se está sem uso, na garagem de casa, por muitos dias. “São todos dados que me permitem entender se o nível de risco de determinado cliente é alto ou baixo, se corremos mais ou menos risco de um sinistro”, explica Barbieri.

No Brasil, a solução de telemetria automotiva já é comercializada pela Logicalis e, segundo o diretor de tecnologia da empresa, Lucas Pinz, este é apenas um produto dos muitos que devem ter impacto no mercado de seguros. “Há testes em curso de uso de IoT no agronegócio por meio de dispositivos que medem, em tempo real, o regime de chuvas, ventos e variação de temperatura em uma determinada fazenda, por exemplo. Isto permite ampliar o crédito para agricultores cujos equipamentos mostrem potencial produtivo em ascensão, bem como enviar ao banco alertas de propriedades que precisam ser monitoradas mais de perto, antes da concessão de novos empréstimos, face a dados climáticos mais preocupantes”, afirma Pinz.

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“Há testes em curso de uso de IoT no agronegócio por meio de dispositivos que medem, em tempo real, o regime de chuvas, ventos e variação de temperatura”

— Lucas Pinz, da Logicalis

No setor de seguros para saúde, o potencial da IoT é igualmente promissor. Dispositivos como relógios, pulseiras e até talheres conectados podem informar à seguradora os hábitos de alimentação e estilo de vida de seus segurados. Quem se cuida mais, paga menos. Quem abusa, tem o fator de risco (e a precificação de seus produtos) aumentados.

“É possível medir até quem toma o remédio nos horários certos e enviar alertas a quem está falhando em um tratamento. Com mais adesão ao tratamento, todos ganham, o paciente fica mais saudável e o sistema de saúde, menos sobrecarregado”, afirma o médico infectologista Paulo Pialarossi, pesquisador de inovação médica do Hospital das Clínicas, em São Paulo.

Monitorar dados de saúde pode, ainda, dar subsídios a sistemas antifraude, como a análise de compras suspeitas feitas no cartão de crédito ou saques em dinheiro feitos fora do padrão. “Se um saque é feito em um momento de batimento cardíaco acelerado, a chance de a pessoa estar sob coação é alta, bem como se o cartão é usado quando a pessoa dorme, isto também pode ser um indicativo de fraude”, afirma Pialarossi.

Com a explosão do número de dispositivos conectados, operadoras de telefonia já criam produtos para uso exclusivo em objetos plugados em nuvem. “Até o momento, o tipo de dispositivo mais comum, como pulseiras e relógios, usa uma conexão Bluetooth, que envia dados para o smartphone e, este então, usa seu chip GSM para enviar dados para a nuvem”, afirma Eduardo Polidoro, diretor de IoT da operadora Claro. “O que nós discutimos agora é colocar chips diretamente nos aparelhos, para que eles não dependam de aproximar-se do telefone para trocar dados.”

Polidoro faz, no entanto, um alerta: “É fundamental que estes dados capturados tenham uma aplicação prática, que melhorem a vida do consumidor e dos prestadores serviços; o dado, sem análise, é apenas um fator de custo para o usuário”.

Além dos custos com tráfego de dados, IoT representa riscos legais e de imagem para as instituições financeiras que a adotarem. “Ainda que os bancos tenham consciência de que não podem ficar de fora desta onda, há muito temor sobre como garantir a segurança de informações trafegando em redes com muitas pontas. Uma brecha de privacidade, por exemplo, que vaze dados de clientes, pode causar danos enormes às marcas”, informou, por e-mail, o banco americano Well´s Fargo, que testa soluções de pagamento integrado a automóveis. “Estamos usando chips com limite de crédito pré-aprovado em carros de nossos clientes; estes equipamentos se comunicam com terminais em postos de gasolina e permitem que o motorista encha o tanque e pague a conta sem tirar as mãos do volante”, informou o banco. Porém, a instituição garante que avança com cautela para entender até onde vai o limite entre a comodidade oferecida e os riscos assumidos pelo banco.

Embora empolgue o setor, o avanço da IoT no setor financeiro dependerá, ainda, de muitos testes e investimento. O mesmo estudo da Deloitte, que aponta um mercado potencial de US$ 5 trilhões para esta tecnologia, estima que serão necessários “dezenas de bilhões de dólares” em pesquisa e desenvolvimento para criar as soluções que farão a tecnologia decolar. Em 2016, a Deloitte só foi capaz de identificar US$ 117 milhões investidos em IoT, uma fração mínima do aporte necessário.

No Brasil, apesar do aperto fiscal, o BNDES promete uma linha bilionária para empresas nacionais que desejem criar soluções de IoT para vender no mercado. A linha de financiamento é discutida ao mesmo tempo em que o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) tenta definir um Plano Nacional de Internet das Coisas, estabelecendo regras sobre qual tipo de dado pode ou não ser captado dos consumidores e para qual finalidade. O plano deve ficar pronto só no final de 2018, estima o MCTI. Até lá, todos os testes feitos por bancos brasileiros ficam também sob riscos regulatórios.