O blockchain , plataforma digital para transações financeiras, revolucionará a maneira como lidamos com o dinheiro. A tecnologia abre a possibilidade de atingir 3 bilhões de pessoas ainda sem acesso a serviços bancários em todo o mundo, e tem recebido um volume crescente de investimentos: saindo de US$ 100 milhões, investidos entre 2009 e 2013, o montante chegou a US$ 1,4 bilhões entre 2014 e 2016.

O gerente sênior da Accenture Strategy, Ricardo Polisel, considera que o blockchain será a “internet do dinheiro”, com o mesmo potencial disruptivo que a rede mundial de computadores teve nos anos 1990. “Vemos uma chance de reduzir os custos em relatórios financeiros, compliance, autenticação de usuários e back office”, explica Polisel.

Estudo feito pela Accenture, em janeiro de 2017, calcula ser possível a redução de 50% nos custos de 8 dos 10 maiores bancos de investimento do mundo, uma economia de até US$ 12 bilhões nessas instituições, pela menor necessidade de infraestrutura com a adoção do blockchain. De acordo com Polisel, a automação das tarefas bancárias será possível com a adoção do blockchain combinada com tecnologias de inteligência artificial e de internet das coisas (IoT).

Para o gerente sênior de Inovação e Novos Negócios da consultoria Indra, Mario Robredo, não se trata apenas de buscar mais eficiência, “mas sim de encontrar novos modelos de negócios que podem surgir com o uso do blockchain”. A mudança deve afetar o papel das instituições financeiras tradicionais e permitirá acesso a 3 bilhões de potenciais clientes no mundo que ainda não possuem conta em bancos, diz Robredo.

De olho na oportunidade de novos negócios trazida por todas essas mudanças, os bancos brasileiros começam a fazer experiências com o blockchain. Igor Freitas, superintendente de Arquitetura Corporativa do Itaú Unibanco, conta que a instituição criou um centro de excelência sobre o tema, para monitorar o impacto dessa tecnologia no dia a dia do banco: “criamos quatro frentes de trabalho compostas por alianças e estratégias educacionais com workshops e palestras, desenvolvimento de pessoas e monitoramento de plataformas”.

Igor Freitas, do Itaú: banco estabeleceu quatro frentes de trabalho para monitorar e estudar o impacto do blockchain no dia a dia do banco

Freitas, no entanto, ainda vê desafios para a implantação do blockchain nas instituições financeiras: o tamanho exigido para os bancos de dados, número de transações confirmadas por segundo, a criação de um processo de identificação seguro e a governança são alguns desses desafios, de acordo com o executivo do Itaú.

Para acelerar o entendimento sobre o blockchain e desenvolver aplicações financeiras na plataforma, a FEBRABAN organizou um grupo de trabalho sobre o tema, com participantes de vários bancos associados. O coordenador do grupo de trabalho, Adilson Fernandes, explica que os bancos fizeram provas de conceito (testes com dados fictícios usando a tecnologia), e que em 2018, os bancos terão aplicações para serem testadas com dados reais.

“Estamos atuando para criar um produto para o mercado”

Adilson Fernandes, coordenador do grupo de trabalho de blockchain da FEBRABAN

A criação de um grupo de trabalho colaborativo na FEBRABAN para a discussão do tema, permitindo aos bancos brasileiros conhecer as plataformas existentes de blockchain e as experiências internacionais sobre o assunto foi um passo inovador, acredita Fernandes. Criado em 2016, o trabalho do grupo já passou por três fases: “a primeira serviu para aumentar o conhecimento das instituições envolvidas sobre o blockchain; na segunda, abordamos cases estrangeiros e estudamos essas aplicações; na terceira fase, realizamos provas de conceito; agora na quarta onda, estamos atuando para criar um produto para o mercado”, diz Fernandes.

Testes no CIAB

“Em vez de adaptar o blockchain para os bancos, devemos fazer o contrário”, diz, ao comentar as provas de conceito com aplicações usando blockchain, Robert Sagurton, diretor da R3 Lab and Research Center, entidade do consórcio R3, que congrega algumas das principais instituições financeiras e tecnológicas do mundo para desenvolver o blockchain no mercado financeiro. Assim como o diretor do GT da FEBRABAN, Sagurton não vê o blockchain como uma ameaça, mas como uma oportunidade para os bancos.

“Em vez de adaptar o blockchain para os bancos, devemos fazer o contrário”

Robert Sagurton, do R3 Lab and Research Center

Sagurton revelou que está de mudança para o Brasil – a R3 irá abrir um escritório em São Paulo, sob sua direção. A ideia é desenvolver uma plataforma a ser usada por instituições bancárias e empresas para criação de soluções financeiras. No Brasil, a R3 irá se associar com a B3 e os bancos Itaú e Bradesco.

Duas provas de conceito, em que se testam soluções possíveis com dados fictícios usando a nova tecnologia, foram executadas durante o CIAB 2017. Foram testadas duas plataformas diferentes de blockchain para gerenciamento de cadastros e identificação de clientes: o projeto FingerPrint usou a plataforma Corda, da R3, e o projeto DNA usou a plataforma Hyperledger.

O objetivo foi mostrar a possibilidade de manter um cadastro único de clientes de forma descentralizada e, ao mesmo tempo, garantir a privacidade, rastreabilidade e imutabilidade desses dados. “A ideia é simplificar o cadastro para os usuários, e manter os dados dos clientes atualizados, evitando redundância; assim, há possibilidade de redução de custos para os bancos”, explica Richard Silva, superintendente do Santander Brasil.

A prova de conceito foi bem-sucedida: gerenciando dados de clientes fictícios, o blockchain permitiu que a mudança de dados de cadastro de um deles, no registro de um banco, levasse, em tempo real, à alteração dos cadastros do mesmo cliente nos outros dois bancos participantes do modelo. Se aplicado de fato pelos bancos, essa sincronização de dados de cadastro dependeria, claro, da autorização do cliente, que ganharia a comodidade de ser dispensado de alterar seus dados nas bases de todos os bancos nos quais tem conta, quando necessitasse fazer alguma correção.

Alguns bancos realizam experiências numa terceira plataforma de blockchain, a Etherium. Com a ajuda da Microsoft, o banco Votorantim começou a desenvolver uma aplicação para validar CCB (Cédula de Crédito Bancário). “A cooperação entre bancos, reguladores e empresas fornecedoras de tecnologia é fundamental, pois ninguém desenvolve nada em blockchain sozinho”, ressalta o Inovation Advisor do banco, Luiz Nugnes.

Experiências no mundo

Uma das principais inovações trazidas pelo uso do blockchain é a possibilidade de validação e execução de contratos digitais, os chamadossmart contracts, explica Julio Faura, head de R &D and Inovation do Banco Santander. Escritos como um código de programação, esses documentos permitem a celebração de um contrato sem a necessidade de um intermediário (cartórios, governos), para definir obrigações, benefícios e penalidades de cada uma das partes envolvidas numa transação.

Julio Faura, do Santander, diz que uma das principais inovações trazidas pelo uso do blockchain é a possibilidade de validação e execução de contratos digitais, os smart contracts

Ao usar uma plataforma como o blockchain, é possível até automatizar a execução e fiscalização de certos contratos envolvendo montantes financeiros e obrigações entre as partes _ como no financiamento de comércio exterior envolvendo smart contracts, em que mecanismos digitais avisam sobre o recebimento de produtos por parte de importadores, liberando automaticamente o pagamento ao exportador, por exemplo.

Outras aplicações possíveis envolvem pagamentos entre instituições financeiras, transações no mercado de capitais e até mesmo levantamento de informações por parte de outros setores, como no rastreamento da cadeia produtiva de alimentos, da produção até o supermercado, ou na certificação de madeira sustentável.

“Por enquanto, os usos principais estão nas atividades internas dos bancos”, explica Frederic de Mariz, diretor executivo do banco UBS. Um exemplo, segundo o executivo, é o sistema de cadastro desenvolvido pelo banco francês Crédit Mutuel. A maior vantagem do blockchain é tornar as transações mais eficientes e seguras ao serem feitas na plataforma, gerando redução de custos para os bancos, defende Mariz.

Faura explicou que os bancos e as empresas buscam formas de regulamentar o uso do blockchain. “Além de procurar maneiras de usar a plataforma, precisamos saber como o uso do blockchain pode ser considerado legalmente válido.” Uma das vias mais promissoras é o esforço para obter ajuda dos governos e dos sistemas de cartório, explicou o executivo do banco espanhol. Faura diz que o Santander já usa a plataforma para fazer pagamentos internacionais entre bancos.

Já para Robert Brinkman, arquiteto de Sistema para Mercados Financeiros da IBM, a segurança nas transações é um fator primordial. “Se as empresas vão colocar todas as informações nessa plataforma, temos que garantir a segurança nessas transações.” A padronização e integração dos diferentes sistemas é um passo necessário, segundo os especialistas.

Brinkman explica que o uso do blockchain extrapola o setor bancário. O agronegócio e o varejo também usam a tecnologia para rastrear produtos, como alimentos e madeira certificada. “Imagine que você pudesse rastrear um alimento desde a fazenda até a gôndola do supermercado. Você conseguiria otimizar a produção e a distribuição de modo a tornar o processo mais eficiente, evitando o vencimento de produtos e melhorando a eficiência dessa cadeia produtiva, eliminando os custos de forma contundente”, diz o arquiteto de sistemas da IBM.