Empresas, pessoas físicas e universidades ganharam um ambiente virtual para desenvolver protótipos e trocar conhecimentos com o Banco Central. É o Laboratório de Inovações Financeiras e Tecnológicas (Lift), criado em maio pela autoridade monetária para fomentar soluções financeiras tecnológicas e promover a inovação no sistema financeiro nacional.

“O Banco Central está muito interessado em conhecer as tecnologias disruptivas que podem quebrar alguns paradigmas do sistema financeiro”, afirmou a diretora de Administração do Bacen, Carolina Barros. Trocadilho proposital com o verbo “to lift”, que em inglês significa “elevar”, o Lift quer, justamente, estimular ideias que usem novas tecnologias como blockchain, inteligência artificial e analytics para promover a inovação tecnológica no sistema financeiro nos próximos anos.

Beto Nociti/BCB

“O Banco Central está muito interessado em conhecer as tecnologias disruptivas que podem quebrar alguns paradigmas do sistema financeiro”

— Carolina Barros, do Bacen

O Lift foi inspirado em experiências internacionais semelhantes, notadamente iniciativas do Banco da Inglaterra e da Autoridade Monetária de Cingapura; mas há diferenças importantes na modelagem do laboratório brasileiro. A principal delas é que as ações do Lift não se restringem às empresas de tecnologia de serviços financeiros (fintechs), como nesses países. O Bacen quer que, no Brasil, toda a sociedade - de universitários a pesquisadores, de empresas a startups - possam inscrever projetos inovadores.

Outro diferencial do Lift é o foco no desenvolvimento de um projeto - ou ideia - capaz de contribuir com a modernização do sistema financeiro. “O foco do Lift é a pré-incubação, o experimento e a prova de conceito, com o objetivo de construção de um protótipo”, explica Aristides Cavalcante, chefe-adjunto do Departamento de Tecnologia da Informação do Banco Central.

Na primeira rodada, os projetos deverão se concentrar em inovações ligadas a quatro pilares definidos pelo comitê gestor do Lift: cidadania financeira, legislação mais moderna, sistema financeiro mais eficiente e crédito mais barato. “Esses são também os quatro pilares da 'Agenda BC+', com o intuito de tornar o sistema financeiro mais eficiente”, diz Carolina.

A fase de inscrições de projetos para o Lift termina em 24 de junho. Posteriormente, o comitê gestor do laboratório analisará os projetos e selecionará os mais promissores. O resultado será anunciado em 16 de julho; e, a partir desse momento, os proponentes das ideias selecionadas terão 90 dias para o desenvolvimento de um protótipo.

Na prática, o Lift funcionará como um ambiente virtual e colaborativo. Os desenvolvedores vão receber orientações e avaliações de um grupo de acompanhamento de projetos, formado por especialistas em tecnologia do Bacen, da Federação Nacional das Associações de Servidores do Banco Central (Fenasbac) e de provedores de TI credenciados.

Esse é outro diferencial do Lift em relação às iniciativas da Inglaterra e de Cingapura: grandes provedores de tecnologia como Amazon Web Services, IBM e Microsoft Brasil foram selecionados como parceiros para “apadrinhar” os projetos. As gigantes de tecnologia fornecerão gratuitamente serviços de nuvem e as tecnologias necessárias para transformar a ideia em um protótipo (a exemplo de machine learning, serviços cognitivos e inteligência artificial, por exemplo). Essas empresas também darão suporte técnico para os projetos.

Os selecionados não receberão aporte financeiro. “Os projetos serão construídos de seis a oito mãos; a ideia é que novos parceiros sejam credenciados no futuro”, diz Carolina. A escolha de um ambiente virtual, em lugar de um espaço físico, foi pensada para tornar o laboratório mais inclusivo e destravar qualquer limitação física, atraindo desenvolvedores de qualquer região do Brasil ou mesmo do exterior.

Todo o desenvolvimento dos trabalhos será documentado, e um relatório final será gerado após os três meses de desenvolvimento de cada protótipo. Conforme Cavalcante, a ideia é que, uma vez criado um protótipo, o criador tenha condições de desenvolvê-lo em uma incubadora de uma universidade ou mesmo em uma aceleradora de uma instituição financeira.

“Ele terá base para maturar o protótipo e transformá-lo em um produto que poderá ser comercializado no sistema financeiro”, diz Cavalcante, explicando que outra vantagem é que o detentor do protótipo terá a capacidade de elaborar um produto que já observa as limitações e os riscos regulatórios do setor.

O Banco Central não estabeleceu metas para o número de inscrições ou de projetos aprovados nessa primeira rodada do Lift. A procura, entretanto, é intensa. “Até o final de maio, tivemos cerca de 200 consultas de interessados; dessas, 10 caminhavam para se qualificar como projetos”, diz a diretora de Administração do BC. O Bacen pretende manter uma agenda contínua de trabalhos para o Lift, após o término da primeira rodada.