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Nicolas Parmaksizian é um dos destaques do CIAB FEBRABAN 2018

A carreira do inglês Nicolas Parmaksizian passou por transformações que fazem lembrar os solavancos de alguns segmentos mais dinâmicos do mercado financeiro. Executivo de vendas e experiência do consumidor no tradicionalíssimo banco inglês Barclays, uma instituição fundada em 1690, Nic, como prefere ser chamado, foi mentor da nada convencional Virgin, que conduz projetos de viagens espaciais e investe em startups; e, hoje, lidera a divisão de Inovação Digital da consultoria Capco, nos Estados Unidos. A transição entre o convencional e o inovador é também um símbolo das mudanças no setor bancário, que mantém um pé na tradição e confiança e outro no desafio de abraçar tecnologias disruptivas, como blockchain, bancos digitais e open banking.

Palestrante convidado para o CIAB FEBRABAN 2018, Nic conversou, de Nova York, sobre as transformações das instituições financeiras no mundo e sobre o tema de sua apresentação no congresso de tecnologia: a democratização dos dados dos consumidores, que, segundo o especialista, estarão ao alcance de pequenas empresas e indivíduos comuns nos próximos anos.

O senhor tem defendido a ideia de que os dados e os hábitos de consumidores serão “democratizados”. Para muitas empresas como o Facebook, porém, estas informações são seu ativo mais importante. Por que elas abriram mão disso?

Nicolas Parmaksizian – Quero discutir, com o público brasileiro, sobre um fenômeno que chamo de “democratização”, pois a concentração de informação nas mãos de poucas companhias, como o Google e o Facebook, deve deixar de existir. Isto não quer dizer que estas empresas, generosamente, abrirão seus dados, mas sim que estas informações coletadas pertencerão aos próprios usuários e eles deverão ter o poder de decidir quais outras empresas ou pessoas físicas, além do Facebook, poderão acessá-los para lhes oferecer soluções inovadoras e mais conveniência.

Recentemente, milhares de usuários cancelaram suas contas no Facebook justamente por temerem mal uso de seus dados, como no escândalo Cambridge Analytica, em que uma empresa usou dados da rede social para influenciar a opinião pública. Isto não é contraditório com a ideia de maior abertura de dados?

Nicolas Parmaksizian – Eu defino este escândalo como a “ponta do iceberg”. Na verdade, me parece muito preocupante, justamente, que nossos dados se concentrem nas mãos de uma única empresa, neste caso o Facebook. Não tenho o poder de prever o futuro, mas observo que pouca coisa mudou após este escândalo e, infelizmente, ainda veremos muitos outros problemas com vazamentos de dados. Justamente, por isso, creio que os usuários vão querer decidir eles próprios como compartilhar suas informações e não deixar isto a critério de uma rede social, por exemplo.

Gosto de citar uma frase do ex-primeiro ministro inglês, Winston Churchill. Ele afirmava que, ao não aprender as lições da história, estamos condenados a repeti-la. Penso que serão necessários novos vazamentos de dados e muitas controvérsias para uma maior tomada de consciência por parte dos consumidores, mas, ao longo do tempo, o usuário exigirá ter maior controle sobre seus dados.

Como os usuários poderão proteger seus dados? Afinal, hoje em dia é praticamente impossível ser uma pessoa produtiva e conectada às tendências de mercado sem usar GPS, Google Maps, redes sociais...

Nicolas Parmaksizian – Nós podemos nos proteger. Qualquer serviço digital, como mapas ou aplicativos móveis, possui funções de privacidade que podem ser ligadas ou desligadas. É claro que, atualmente, boa parte dos consumidores simplesmente não se atenta a isso, não tem o cuidado de checar as configurações de fábrica de seus dispositivos, mas à medida que tiverem maior consciência dos benefícios e dos riscos de compartilharem seus dados, poderão mudar seu comportamento.

E, neste momento, terão maior poder de decisão, poderão dizer que tal informação não deve ser enviada ao Facebook, mas pode ser compartilhada com seu banco ou com sua família, pois entende que tal dado pode ser útil para sua segurança pessoal ou para protegê-lo de fraudes. Neste sentido, acredito que haverá maior controle das informações.

Como isso afetará o setor financeiro? Entre os bancos de varejo, por exemplo, há muitas análises sobre eventuais riscos de permitir que os correntistas compartilhem seus dados bancários com terceiros.

Nicolas Parmaksizian – Certamente há riscos de privacidade envolvidos, e eu aconselharia qualquer banco que adote soluções de open banking, por exemplo, a ser totalmente transparente com seus correntistas, deixando muito claro quais informações o cliente estará abrindo a aplicações terceiras. O que noto, no entanto, é que ainda há uma posição defensiva dos bancos de varejo, que temem perder parte de sua receita para fintechs se abrirem suas plataformas para exploração de terceiros. Tenho visto, em todo o mundo, poucas experiências de bancos que olham o fenômeno open banking como uma possibilidade de diferenciar-se da concorrência e ganhar mais mercado.

Obviamente, a adoção de soluções de open banking deve ser acompanhada, além da transparência, por investimentos em segurança virtual. Sabemos que os consumidores têm uma tendência inata a serem leais às marcas e às empresas que os atendem bem, mas esta lealdade pode ser quebrada se houver um escândalo ou vazamento inapropriado de dados. De toda forma, o pior cenário seria os bancos ignorarem as inovações que estão surgindo no mundo em termos de abertura de dados.

Parte do nosso trabalho na Capco, aliás, é auxiliar os bancos a fazer esta análise e tomar a decisão mais inteligente de acordo com seu modelo de negócios. Estudamos os serviços digitais que um banco brasileiro oferece a seus clientes, por exemplo, depois comparamos isto a serviços oferecidos em outros países do mundo e tentamos entender quais inovações poderiam ser um diferencial competitivo em seu país, quais riscos estariam associados a esta decisão, quais seriam os ganhos e perdas potenciais.

Alguns especialistas afirmam que as pessoas, individualmente, optarão pode vender seus dados às empresas. Como isso pode se tornar uma realidade?

Nicolas Parmaksizian – Não só pessoas, mas empresas também. Com o advento da tecnologia blockchain, que é considerada segura e inviolável, será possível o surgimento de marketplaces de comércio de dados. Eu poderia, por exemplo, vender os dados do meu carro, que será um carro conectado no futuro próximo, para montadoras estudarem meus hábitos e planejarem carros mais econômicos e eficientes. Um grupo de donas de casa poderia vender em um marketplace seus hábitos de compra em supermercados e ajudar o setor do varejo a ter informações mais detalhadas sobre os hábitos dos consumidores. Os dados não serão mais exclusivos de ninguém e será possível a cada cidadão monetizá-los em plataformas online.

Ao observar o mercado brasileiro de bancos, quais mudanças o senhor considera mais prováveis acontecerem aqui?

Nicolas Parmaksizian – No Brasil, país que possui um percentual de população jovem mais elevado que em outras regiões do mundo, como a Europa, vejo que haverá maior pressão para que os bancos ofereçam serviços contínuos, que assegurem conectividade e fluidez 24 horas por dia. Jovens tendem a comparar internet banking a outros serviços que usam online, como streaming de música e redes sociais. Os bancos online precisarão ser mais rápidos e sempre disponíveis.

Por fim, o percentual de população não bancarizada no Brasil ainda é relativamente alto, em comparação com outras nações do mundo ou, mesmo quando possuem conta no banco, muitos brasileiros usam os pacotes mínimos de serviços. Acredito que há muito espaço para crescimento do setor bancário brasileiro, oferecendo novos serviços para quem os utiliza pouco ou simplesmente não está dentro do sistema financeiro. Devemos ter em mente que, em todo o mundo, as pessoas estão utilizando mais serviços financeiros e elas farão isso dentro de um banco convencional ou simplesmente usando novas plataformas oferecidas por fintechs.