A cada ano, o avanço tecnológico e a facilidade dos meios digitais possibilitam que mais pessoas tenham acesso a serviços financeiros e paguem contas, façam transferências e também contratem empréstimos. Com a transformação digital e o advento das fintechs, empresas com estruturas enxutas e forte apoio de tecnologia, o consumidor passou a ter mais opções para se incluir no sistema financeiro. A proliferação desse tipo de negócio chama a atenção de grandes bancos e instituições de menor porte, e crescem as iniciativas e parcerias com as fintechs para produtos e soluções voltados à população ainda fora do sistema financeiro.

Atualmente, 35% das fintechs brasileiras estão voltadas para os desbancarizados, segundo os últimos dados do blog de serviços financeiros digitais Finnovation, em estudo feito em parceria com o BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) e a aceleradora Finnovista - de um total de 377 startups mapeadas. No próximo levantamento, que será divulgado até o final do ano, o número de fintechs ultrapassará 400 no país, adiantou Guilherme Horn, líder de Inovação da Accenture e editor do blog Finnovation.

Luiz Michelini

Guilherme Horn, da Accenture e do blog Finnovation: dois terços das fintechs que nascem hoje, no mundo todo, têm como objetivo firmar algum tipo de parceria com os bancos

Dados do Banco Central mostram que, no ano passado, 86,3% da população adulta tinha algum relacionamento com o sistema bancário, totalizando 139,3 milhões de brasileiros com idade acima de 15 anos; isso significa que ainda há um contingente de 22,1 milhões de brasileiros adultos sem acesso a serviços financeiros.

Um dos cases mais conhecidos para impulsionar a bancarização no país é o do Banco Digital Maré, um dos vencedores da última edição do 3º Ciab fintech Day, destaque do CIAB FEBRABAN 2018, congresso de TI para o setor financeiro. A fintech foi criada em 2016 para atender cerca de 200 mil moradores de 17 comunidades que compõe o Complexo da Maré, zona norte do Rio de Janeiro, local sem agências bancárias. Um aplicativo permite que os usuários comprem no comércio local, por meio de QR Code, e também paguem suas contas e façam transferências. O Sicoob (Sistema de Cooperativas de Crédito do Brasil) é parceiro da startup na iniciativa.

Após dois anos de sua criação e passagens por processos de aceleração do Facebook e Artemísia, a fintech já chegou em outras comunidades do país, como Heliópolis, na Grande São Paulo. Além disso, uma parceria com a Caixa Econômica Federal levará os serviços financeiros da startup para Arapiraca, no interior de Alagoas.

Segundo Alexander Albuquerque, CEO do Banco Maré, a empresa agora trabalha no desenvolvimento de um aplicativo tanto de identificação digital, quanto de reconhecimento facial, para ajudar os beneficiários do Bolsa Família, que precisam ir até uma agência da Caixa para receber o auxílio. "Queremos algo que valide que aquela pessoa realmente exista, e, assim, possa receber o benefício em um local mais perto de sua casa, ou até mesmo por meio do aplicativo."

Luiz Michelini

Alexander Albuquerque, CEO do Banco Digital Maré: fintech foi criada em 2016 para atender 200 mil moradores do Complexo da Maré, no Rio, local sem agências bancárias

Após a participação no CIAB, a fintech passou a ser residente do Cubo Itaú, centro de inovação e empreendedorismo do banco. "Esperamos que o Banco Maré cresça 30% ainda neste ano, mas nos disseram que é possível chegar a 75% de incremento."

A Ewally, outra fintech vencedora do CIAB fintech Day 2018, desenvolveu um app que permite pagar contas, transferir dinheiro, fazer cobranças e recarga, sem comprovação de renda. O modelo de negócio está previsto na lei nº 12.865, de 9 de outubro de 2013, que possibilita o funcionamento de arranjos e instituições de pagamento. Segundo o Banco Central, a legislação aprimora o processo de inclusão financeira para um cidadão sem conta corrente e sem acesso a serviços de pagamento tradicionais.

Entre os parceiros da Ewally estão a Rede 24 Horas, Bradesco Expresso e Alelo. Segundo Andre Cunha, CEO da fintech, quando a plataforma foi criada, no último trimestre de 2012, o objetivo era promover a inclusão financeira e dar ao não bancarizado a mesma experiência que o bancarizado tem. "O negócio evoluiu e atualmente, temos APIs [plataformas que possibilitam a terceiros acessar partes importantes de um servidor e bancos de dados para criar nova aplicação] que permitem que empresas e instituições também usem nossos serviços."

A Ewally participou da segunda edição do inovaBra startups e hoje é habitante do inovaBra habitat, que fazem parte dos oito programas do ecossistema inovaBra, do Bradesco, criado para promover a inovação dentro e fora do banco. Após o CIAB, a fintech também foi uma das seis selecionadas para participar da segunda edição do boostLAB, programa de potencialização do BTG Pactual, em parceria com a aceleradora latinoamericana ACE.

Os bancos também voltam suas atenções para fintechs de empréstimos. A Lendico, fintech de concessão de crédito digital que trabalha em parceria com os bancos CBSS e BMG, começou suas operações no Brasil em julho de 2015. Mensalmente, a empresa recebe, em média, 160 mil pedidos de empréstimo por meio de seu site, e ao todo já emprestou R$ 220 milhões.

Mylena Maurutto, diretora financeira da Lendico, acredita que o relacionamento entre fintechs e instituições financeiras é saudável para o consumidor, para os bancos e para as startups. "Trazemos uma otimização operacional importante para o banco e uma expertise de captação de clientes no mundo digital", diz. "As parcerias com os bancos funcionam porque cada um respeita muito bem o seu negócio."

Dois terços das fintechs que nascem hoje, no mundo todo, têm como objetivo firmar algum tipo de parceria com os bancos, segundo Guilherme Horn, da Accenture e do blog Finnovation. "Isto não é diferente no Brasil. Quem pode ser o maior beneficiado deste movimento é o usuário final, que terá acesso a produtos mais simples, baratos e personalizados."

Exemplos nos grandes bancos

Os grandes bancos também apresentam cases de sucesso voltados para a inclusão financeira. Em 2016, o Santander comprou a fintech Superdigital, voltada tanto para usuários que tenha conta em banco ou não. Quando adquirida, tinha cerca de 150 mil usuários e hoje conta com 1,2 milhão de clientes.

O aplicativo cobra uma assinatura mensal que varia entre R$ 7,90 e R$ 11,90 e permite que o usuário faça transações como se estivesse em um aplicativo de conversa. O cliente pode rachar contas pelo chat e promover vaquinhas digitais, o que inclui fazer e receber transferências de bancos tradicionais. Também pode recarregar celulares pré-pagos e cartões de transporte público, pagar contas, fazer saques nacionais e internacionais e compras online ou em lojas físicas.

Segundo Fernando Miranda, diretor de Novos Negócios do Santander, a Superdigital registra R$ 3 bilhões em transações anuais e atualmente está mais voltada para as classes C, D e E. "A inclusão digital é um dos pilares do Santander", diz. "Não se trata apenas de bancarização, e sim de inclusão financeira, já que em muita região do Brasil, a bancarização se faz muito mais complexa."

A Caixa Econômica Federal lançou em 2016, em parceria com a ONG Artemisia, um desafio de negócios de impacto social que mapeou 460 startups que representam as soluções mais inovadoras do país em serviços financeiros para a população de baixa renda. Desse total, foram selecionadas 15 empresas na primeira etapa da iniciativa, que contou com investimento do Fundo Socioambiental (FSA) Caixa.

Na segunda etapa, cinco delas foram selecionadas (Poupe Mais, Quero Quitar!, SmartMei, Jeitto e DimDim) e receberam até R$ 200 mil para implementar essas soluções junto ao público beneficiário. "O desafio lançado mostrou o alto potencial de impacto social representado por negócios que têm vocação para promover a inclusão financeira da população de menor renda", afirmou o banco.

Crescem startups em centros de inovação

Desde 2015, centros de empreendedorismo e inovação abertos, como o Cubo, do Itaú, e inovaBra, do Bradesco, marcaram o início da aproximação entre os bancos brasileiros e as fintechs e startups de diversos segmentos.

Inaugurado há três anos, com o fundo Redpoint e.ventures, o Cubo Itaú começou em um espaço de cerca de 5 mil m² com capacidade para até 50 startups, e, no último mês passou para um novo e maior espaço, com 14 andares e área total de mais de 20 mil m². Agora, o local tem 65 startups residentes. Segundo o Cubo Itaú, as empresas residentes apresentaram no ano passado faturamento de R$ 110 milhões e os negócios gerados com as grandes empresas foram mais de 370. Até julho deste ano, o faturamento já totalizava R$ 230 milhões, com mais de 720 contratos fechados.

Edu Bandelli

Cubo Itaú está em um espaço maior em área total de mais de 20 mil m²: agora, o local conta com 65 startups residentes

Lineu Andrade, diretor de Tecnologia do Itaú Unibanco responsável pelo Cubo Itaú, diz que hoje, mais de 50 projetos e pilotos entre o banco e as startups residentes, de diversos segmentos, já foram iniciados. "Enxergamos o avanço das fintechs como uma oportunidade para a construção de parcerias e, também, para o aprimoramento da oferta de serviços aos clientes."

Criado em outubro de 2015, o inovaBra, do Bradesco, é formado por oito programas complementares, entre eles o inovaBra startups, aberto para a formação de parcerias entre o banco e empresas que possuam soluções aplicáveis ou adaptáveis aos serviços financeiros. Já passaram pelo programa, que está na sua quarta edição, 14 fintechs e sete insurtechs (startups que atuam no setor de seguros).

Divulgação

"ENXERGAMOS O AVANÇO DAS FINTECHS COMO UMA OPORTUNIDADE PARA A CONSTRUÇÃO DE PARCERIAS"

— Lineu Andrade, do Itaú Unibanco

Outro programa é inovaBra habitat, que começou em fevereiro com 50 startups, e hoje já conta com cerca de 180 empresas. Desde o lançamento do habitat já houve participação de startups em mais de 300 atividades de coinovação - reuniões estruturadas que podem se converter em negócios com empresas residentes ou com o próprio banco.

FotoAndres

"O BRADESCO CONSIDERA AS FINTECHS GRANDES PARCEIRAS DE NEGÓCIOS E DE COINOVAÇÃO PARA RESOLVER QUESTÕES E MELHORAR PROCESSOS DO BANCO"

— Fernando Freitas, do Bradesco

"O Bradesco considera as fintechs grandes parceiras de negócios e de co-inovação para resolver questões e melhorar processos do banco", afirma Fernando Freitas, superintendente executivo do Departamento de Inovação do Bradesco. "Inovação se faz com colaboração, então nada mais vital que contar com inovações que não estão dentro de casa para continuar avançando", finaliza