"Vocês dizem que as empresas precisam se comunicar com os clientes de maneira personalizada, na tela do celular, e que a rede 4G é essencial para isso; o que faço em minhas cerca de 120 lojas, todas na região Norte do país, onde não existe nem sequer 1G?", perguntou, após levantar a mão e pedir a palavra, um dos mais de mil participantes do Latam Retail Show, importante seminário de tendência do varejo, realizado em São Paulo, há dois anos. A pergunta causou alvoroço na plateia e fez franzir a testa dos embaraçados palestrantes, que enfatizavam a importância da adoção do marketing digital.

Como resposta, o empresário ouviu que o Brasil ainda enfrentava problemas com coberturas de internet. Quase três anos depois, o país ainda tem no alcance das redes um dos principais desafios de adoção do que os especialistas estão chamando de a quinta geração de internet móvel, batizada de 5G.

Mas não estamos sós, e temos grande companhia de empreendedores e consumidores nos países desenvolvidos. De acordo com o estudo "Insights sobre Transformação Digital e Oportunidades para TICs (Tecnologias da Informação e Comunicação) no Brasil", feito pela consultoria Deloitte, até 2025, apenas 14% do planeta adotará a nova tecnologia, com a liderança de Estados Unidos (49%), Europa (31%) e China (25%). Na América Latina, a adoção será de apenas 7%. O que não significa, porém, que o Brasil e os vizinhos latinos não estejam se preparando, mesmo que mais lentamente, para usufruir dos benefícios do 5G, que não são poucos.

Fonte: Deloitte

Considerada uma tecnologia disruptiva, a rede 5G promete velocidade de transmissão de dados mais rápida, cobertura mais ampla e conexões mais estáveis. Com essas características, viabilizará novos ecossistemas de negócios. Cidades inteligentes, saúde, agronegócio e indústria serão áreas mais impactadas pela chegada do 5G, segundo o Plano Nacional de IoT (internet das coisas), desenvolvido pelo governo em parceria com o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) e o CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico).

Na prática, o 5G trará a massificação do uso da internet das coisas, a disseminação dos carros conectados, games no celular com menos problemas, chamadas de vídeos instantâneas e sem falhas, videochamadas mais claras e mais regulares, uso de drones em larga escala para monitoramento de áreas e salvamentos, entre outras facilidades.

"A adoção do 5G impactará diretamente na forma como as pessoas interagem e realizam suas atividades diárias, bem como na rotina das indústrias e dos negócios, com uma transmissão mais rápida e estável de um grande volume de dados", afirma Marcia Ogawa, líder de Tecnologia, Mídia e Telecomunicações da Deloitte. "Não se trata de uma simples evolução do 4G para o 5G e, sim, de uma revolução, pois conectará não apenas pessoas, mas principalmente as coisas." É o que os estudiosos chamam de base para o conceito de "tudo conectado".

Divulgação

Marcia Ogawa, da Deloitte, diz que adoção do 5G impactará diretamente na forma como as pessoas interagem e realizam suas atividades diárias

Estudo feito pela Ericsson para medir a capacidade que a tecnologia 5G trará para o processo de transformação das indústrias revela que o potencial de mercado das TICs globais será de U$$ 3,4 trilhões por ano, a partir de 2026. Desse total, US$ 1,3 trilhão será impulsionado pelo 5G. Ainda de acordo com o estudo, a "vertical de manufatura" – com negócios voltados para rastreamento de componentes dentro das fábricas, robotização, manutenção de equipamentos usando a realidade aumentada, entre outras tecnologias – terá maior potencial de transformação com a chegada da rede 5G. Na sequência, vêm a "vertical de utilities" – gás, luz, água e energia – e os segmentos de segurança pública, saúde e segurança remota.

Os testes ao redor do mundo andam a todo vapor. O mais emblemático aconteceu no ano passado, na China. Como patrocinadora dos Jogos Olímpicos até 2024, a Intel e a KT, parceira nacional dos Jogos Olímpicos de Pyeongchang, entregaram a maior rede 5G das Olimpíadas de Inverno, incluindo mais de 22 links 5G em 10 localidades, com 3.800 terabytes de capacidade. Em 2020, será a vez do Japão, que se prepara para ter o 5G, não somente para quem acompanhará a competição olímpica, como também na malha ferroviária.

Fonte: Estudo Insights sobre Transformação Digital e Oportunidade para TIC’s no Brasil-Deloitte
Fonte: Deloitte

Estima-se que até 2025, nada menos do que 1,2 bilhão de pessoas acessem essas redes, um terço delas na China, segundo dados da Organização Global GSMA. A viabilização da nova rede exigirá um investimento de cerca de US$ 2 trilhões, por parte da indústria mundial, entre 2020 e 2030.

Mas, para garantir que o Brasil acompanhe as definições globais na transição para o 5G até 2022, o governo deverá promover a sinergia entre 2G,3G,4G e 5G, otimizando os padrões e criando um novo ecossistema de TI e de Telecom. Isso passa por iniciativas que incluam a desburocratização para instalação de novas antenas, criação de um requisito padrão de longo alcance e a definição de medidas para a experiência dos usuários.

Os primeiros passos já foram dados, garante Sergio Kern, diretor da Associação Brasileira de Telecomunicações (Telebrasil). Em 2016, o Brasil e a União Europeia assinaram, em Barcelona, durante o Mobile World Congress, um acordo internacional para desenvolver um padrão de tecnologia 5G, seguindo os acordos fundamentais assinados pela China, Japão e Coreia do Sul. "Embora as conversas estejam bem adiantadas, ainda precisam ser definidos os padrões para todos os protocolos 5G, que serão adotados mundialmente", diz Kern.

Saulo Cruz

"AINDA PRECISAM SER DEFINIDOS OS PADRÕES PARA TODOS OS PROTOCOLOS 5G, QUE SERÃO ADOTADOS MUNDIALMENTE"

— Sergio Kern, da Telebrasil

O executivo observa, porém, que as redes ainda não estão prontas no Brasil para receber a nova tecnologia. É preciso flexibilizar a instalação de antenas desde as torres, chamadas de macrocélulas, até as antenas de curto alcance, usadas nos projetos de smart cities (cidades inteligentes). "As antenas formam uma parte do processo", reforça. "É preciso oferecer uma solução de ponta a ponta para fazer o transporte dos dados em alta velocidade", declara.

Hora de preparar a casa

As estimativas sinalizam que, em 2025, o tráfego na rede será 10 mil vezes maior do que o registrado em 2015. E isso só será possível porque, ao contrário das redes anteriores, a 5G tem uma arquitetura por camadas. Cada uma delas pode ser adotada por uma empresa diferente, e não necessariamente do segmento de telecomunicação. "Soma-se, a essa arquitetura, a capacidade de interligar pessoas e coisas de uma forma disruptiva", afirma Marcia Ogawa, da Deloitte. "Com isso, a rede 5G abre novas oportunidades em três frentes: oportunidade de negócios, de eficiência de operação e de experiência do cliente."

É de olho nessas oportunidades que Bernardo Pascowitch, fundador da startup Yubb – plataforma online que lista as melhores opções de investimento – está acompanhando de perto o movimento 5G. "A velocidade da internet disponível no Brasil não seguiu o perfil das tecnologias adotadas pelos usuários", afirma. "Diariamente, registramos casos de pessoas que acessam nossa plataforma em busca do melhor investimento e acabam perdendo a oportunidade, porque a internet é lenta ou a conexão cai antes da transação ser efetuada."

Fernando Torres

"A VELOCIDADE DA INTERNET DISPONÍVEL NO BRASIL NÃO SEGUIU O PERFIL DAS TECNOLOGIAS ADOTADAS PELOS USUÁRIOS"

— Bernardo Pascowitch, da startup Yubb

Segundo ele, o mercado financeiro passou a ter comportamento semelhante ao de passagens aéreas, com promoções relâmpago, taxas especiais e flexíveis. "O novo modelo pede uma conexão cada vez mais rápida e estável, características que o 5G promete estabelecer", afirma. Com quatro anos de atividade, a Yubb já registrou mais de 41 milhões de buscas por investimentos, soma 190 parceiros entre bancos, corretoras, financeiras e fintechs e capta por mês uma média de R$ 20 milhões.

Para Rubia Alarcon Steiner, superintendente-executiva de Canais Digitais do Bradesco, com uma internet ubíqua (interconectando pessoas e coisas o tempo todo) e barata, usar o banco para consultas e transações será uma atividade mais digital e descentralizada. "Qualquer coisa será interconectada, roupas, relógios, chips, e, consequentemente, se tornará uma interface de serviços", afirma. "Teremos ganhos principalmente na usabilidade, na conectividade ininterrupta e na redução dos custos." A executiva destaca que o Bradesco tem investido fortemente em tecnologia e inovação nos últimos anos, buscando infraestruturas adaptáveis e flexíveis, metodologias ágeis de desenvolvimento e estratégia centrada no usuário.

Hermano Pinto, diretor da Informa e responsável pela Futurecom (congresso internacional de tecnologia), afirma que, para as indústrias, trata-se de um caminho sem volta, que tem na computação em nuvem um dos seus grandes trunfos. "É a primeira geração de comunicação móvel que prevê o uso da nuvem em seu nível máximo", diz. "Isso elimina toda a barreira tecnológica, mudando a forma como as pessoas se relacionarão, e altera os modelos e o modo de se fazer negócio ao redor do mundo."